Mawaru Penguindrum

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Mawaru Penguindrum é uma série de 2011, e é extremamente magnifico perceber o quão relevante e necessário são certos assuntos que a obra aborda de forma espetacular e poética. Ainda não superei o final, a OST, a direção, as ilustrações da Lily Hoshino e o anime ainda está bem vivo na cabeça e no coração, faz mais de semanas.

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Não é uma análise completa sobre a obra como um todo, mas sim de assuntos específicos que me saltaram os olhos e construíram a obra, a qual fora eclipsada pra mim no ano de sua execução, por motivos de: Madoka Magica, e passou a ser uma das melhores coisas que eu já vi. Só depois de um bom tempo, principalmente por influência da mais nova série dirigida pelo Kunihiko Ikuhara (ou para os mais íntimos, Diva Ikuhara) Yuri Kuma Arashi (que também é recomendada) resolvi assistir novamente Mawaru e dar a devida e necessária atenção que a série merece.
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Mawaru constrói um conceito de família que é questionado o tempo todo durante a série. Tradicionalmente, família significa Pai, Mãe, irmãos, avós, tios e etc. Em Mawaru não, a família é quem os personagens decidem amar e compartilhar o seu destino. A visão que Ikuhara coloca na série é uma ideologia familiar muito bonita e acredito ser até a correta, mas ela também é contestada pelo Ikuhara. Em diversos momentos o amor de Kanba por Himari é posto em cheque, entre “você a ama porque quer tê-la para si?” ou “você a ama mesmo que ela não seja sua?”. O amor já é um sentimento pra lá de irracional, ninguém ama porque pensa, amamos porque nós sentimos e isso já um motivo para revirarmos o mundo em nome do mesmo. Kanba entendeu e amou himari porque a amou. Ele escolheu acima de tudo amá-la porque ela era sua família, independente de ser sua esposa ou irmã.
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O amor é em essência um sentimento bom, que faz aflorar os instintos mais bonitos no homem, mas também é um dos motivos para as maiores atrocidades cometidas em nome do próprio. O amor não correspondido gera inveja, dor e até medo, às vezes acaba andando no mesmo caminho do ódio, que eu entendo ser uma extensão do amor. Se odeia, porque se ama. Complexo, não? Mawaru tece a ideologia de que apesar de todos os pesares, o amor é que vence no final, mesmo que o final não pareça justo, a recompensa por se ter amado é a eternidade, afinal de contas a morte não é o fim.
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Nessa vertente familiar, Ikuhara aborda um tema extremamente delicado de forma excepcional: o abuso infantil. Yuri Tokigako e Keiju Tabuki foram crianças nunca amadas. Uma terrivelmente manipulada pela lábia sórdida e distorcida do pai e o outro rebaixado a nada pela mãe, por ter um irmão melhor que ele. Ikuhara não diz de forma escancarada, mas fica claro que Yuri é abusada sexualmente pelo pai e a forma que ele o faz é desprezível. Destrói toda a estima da garota, que não tem problema estético nenhum, dizendo que ninguém iria ama-lá porque era feia, e então ele começa a “transformação”. Ele faz basicamente o que todo pedófilo faz, amedronta a criança, ameaça e diz para ela que só se deve confiar nele. Uma frase que me marcou é quando ele diz para Yuri que ela só deve confiar em quem é da família, quem tem o mesmo sangue, ela acredita. Tabuki é psicologicamente abusado e sofre uma lesão na mão. Fica claro que esse episódio 15 também é sobre negligência familiar. Se tradicionalmente, Pai e Mãe é quem são a família dos seus filhos e o contrário disso é um formato familiar abominável, porque será que as primeiras feridas graves que as crianças sofrem vem deles? Por que eles precisam amar seus pais, se como individuo você pode sim não amar quem você quiser? A criança precisa ser protegida, precisa ser amada e se seus pais de sangue não o fazem, quem decide dividir seu fruto do destino com elas irá fazer, sem obrigação nenhuma, mas por escolha. Essa sim deveria ser a verdadeira família. No mesmo episódio, Masako diz para a Yuri, que é atriz, que ela se assemelha a todos os artistas que não conseguem se desvencilhar de sua infância, por ter sido traumática ou infeliz. Na hora tive um insight sobre Michael Jackson e sua obsessão estranha e controversa com crianças. Aliás, ele é um claro exemplo de que os abusos que sofria para ser um artista perfeito, ainda na infância, foi a grande causa dessa estranha obsessão com sua imagem, o próprio pai dizia que Michael era feio e por isso ele fez diversas plásticas no rosto, principalmente no nariz.
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Puxando o gancho desse episódio, que mostra diversas vezes a estátua do pai da Yuri, como uma clara imagem do patriarquismo e machismo que ainda impera nas mais diversas culturas pelo mundo, temos o episódio 16, que escancara e debocha disso tudo. A postura caricata e cômica do avô de Masako em agir como homem e se orgulhar disso, é engraçada e ridícula. É tão absurda que você, enquanto espectador, nem leva a sério, até se dar conta que o assunto é sério sim e ironicamente, esse tema vem sendo discutido fervorosamente nesses últimos meses. É curioso perceber que em um determinado momento do episódio, Mario, irmão mais novo da Masako, tomado pelo “espirito” do avô, representando como é natural a passagem dessas ideologias primitivas e retrógradas para os meninos, repete as mesmas palavras e atitude estúpida do avô. Seria cômico, e na série é cômico, se não fosse trágico e tão real.

Mas Ikuhara também cria mulheres fortes, que vão atrás daquilo que querem e lutam pelos seus ideais e desejos, não é atoa que no final das contas, quem ganha esse jogo de poder é Momoka. Não significa que a mulher não pode ser salva por um homem, ou obter a sua ajuda, significa que a mulher é tão forte e poderosa quanto o homem, que ela não é inferior e nem tão frágil quanto possa parecer.

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Igualdade entre gêneros deveria ser ensinado desde a infância e não o contrário, talvez seja por isso que Momoka se sacrificava pelos outros, não era só pra mudar os seus destinos e amá-los incondicionalmente, como fez com Yuri e Tabuki, mas para provar que qualquer um, independente de quem seja, pode ser dono do seu próprio destino.

Dica de leitura:

– Toda a pretensiosidade de Mawaru Penguindrum

– Mawaru Penguindrum é bom demais para ser anime

-Entrevista com Kunihiko Ikuhara

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