De Hoshi no Koe a Kotonoha no Niwa – A Reconstrução de Makoto Shinkai

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Nós estamos tão, tão, tão, tão afastados um do outro; mas pode ser que pensamentos possam superar tempo e distância.”

Primeiro de tudo, você sabe no que consiste um “filme Shinkaiano”? Melhor, você sabe quem é Makoto Shinkai? Este é um post relativamente de uma fã, mas, ao mesmo tempo, conduzido pela adoração racional a um dos melhores e mais promissores diretores de animação japonesa da atualidade. Vamos passar por suas obras principais, o que via demorar um pouquinho, até chegar no ponto chave deste texto.

A maioria deve ao menos conhecer Byousoku Go Senchimetoru (5 Centimeter Per Second), que é a obra básica que você precisa assistir para conhecer o diretor dela e ler este post. Makoto Shinkai, o dito-cujo quarentão, produziu várias obras em que colocava sua essência inovadora, alguma coisa que nos desse a impressão de ser pessoal. Ele usa finais em aberto para seus filmes, técnica de roteiro não muito comum em longas japoneses, uma vez que estes costumam ser conceituais. Com isso, além da exímia marca de animação 2D em padrões absurdos, Makoto Shinkai é uma referência da animação independente atual mundial. Sua ousadia mesclada com histórias simples e vozes abafadas concedem conforto e prazer a qualquer um que assista. Ao menos se você não precisar de muita ação no seu filme.

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Todos seus trabalhos foram produzidos pelo estúdio CoMix Wave, onde adquiriu um character design bem característico. Todos seus trabalhos foram licenciados nos Estados Unidos e em outros lugares do ocidente – mais precisamente na Europa Meridional. Todos seus trabalhos ganharam nomeações a prêmios, incluindo algumas conquistas de premiações. Todos seus trabalhos tiveram participação de Tenmon, compositor musical que faz aquelas lindos arranjos.

O mais provável é encontrarmos os primeiros trabalhos de algum diretor diretamente inspirados em alguém, em uma obra, em um tipo de literatura… Porém Shinkai sempre foi único, desde o começo. Um dos pontos principais desta postagem, inclusive, é discutir um pouco sobre o único momento em que ele fugiu de sua unanimidade para referenciar, sem muito sucesso, seu trabalho: Hoshi o Ou Kodomo (The Children Who Chase Lost Voices From Deep Below).

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Um conceito pode valer mais do que uma execução

Nos filmes de Makoto de Shinkai, não existem escolhas propriamente ditas. Cada aspecto da animação, dos personagens, da trilha sonora, das músicas em si servem para algum propósito. Seus conceitos e suas preferências mais íntimas estão, desde sempre, contidas nas concepções sobre a prosperidade jovem da sociedade japonesa. Mesmo assim, seu público costuma ser de jovens na casa dos vinte até trinta anos, claro que com variações.

Transformar música e poesia em anime não é uma tarefa tão simples. Peculiar sem ser extravagante; diferente sem precisar ser exótico e insensato; abstrato sem ser profundo. O modo singelo como tudo progride disfarçadamente pode ser visto por muitos como um padrão, algo a ser desencorajado. Mas a reflexão que suas obras apanham em relação à maioria dos críticos, seja dentro ou fora do Japão, fazem de suas intenções sensatas.

Não existem referências definitivas em Shinkai. A maioria das pessoas, principalmente as que estão conectadas com técnicas de linguagem – mais precisamente linguagem histórica –, apreciam um trocadilho, uma citação, uma verbalização ou música que faça alusão a alguma obra, entidade ou até mesmo pessoa famosa, clássica. Longe de pensar que isto é ruim, também admiro representações. Mas às vezes acho estranho quando dizem que Shinkai é “o novo Miyazaki”. Penso comigo mesma que Shinkai é único, não há por que comparar. Mas aí me pego em um impasse e chego a uma conclusão aceitável: Miyazaki é, sucintamente, único. Logo, a comparação de Shinkai com ele só faz das obras do diretor um conjunto genuíno. Não existe algo ainda que se compare com todas as equivalências de direção, imagem e conceito que Makoto cria. Acima de tudo, é especial e profundo, falando sobre a vida de uma forma simples.

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Um roteiro do Makoto Shinkai serve perfeitamente para ele. Os personagens falam, conversam, mas não se tem certeza se é com o espectador ou com outros personagens. Pelo menos na maioria das vezes, como em Hoshi no Koe (Voices of a Distant Star) ou em Byousoku Go Senchimetoru (5 Centimeter Per Second), há protagonização por mais de uma parte. Sendo assim, fica difícil afirmar com certeza a quem os personagens se referem, pois a brincadeira é exatamente fazer monólogos confortáveis para um enredo enquanto se comunica, da forma que for, com o seu par. E isso acaba refletindo até no nome do anime, Vozes de Uma Estrela Distante. A conclusão é um roteiro muito fácil e simples, sem muitas especificações, até porque ele mesmo é quem irá produzir e animar o filme, ou seja, não precisa de papel quando está tudo na sua cabeça.

Ao longo da postagem, será notada minha preferência em relação às obras e os porquês disso. Ademais, apenas haverá algo que possamos chamar de review – apesar de ser menor que isso e conseguir falar mais – no que tange à última delas, The Garden of Words.

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Hoshi no Koe e Kumo no Muko

Ao contrário do que muitos dizem, Makoto Shinkai ‘sempre’ obteve seu relativo reconhecimento. Mesmo proporcionalmente, quando produziu seu primeiro trabalho consideravelmente divulgativo, já possuía uma atenção de muitos. E não é para menos: Hoshi no Koe (Voices of a Distant Star) foi um trabalho dirigido, escrito, animado, produzido pelo próprio Makoto Shinkai. Os storyboards, alguns temas musicais, tudo foi feito com suas próprias mãos. Sua vontade sempre foi de dar o seu máximo para animar, fazer algo que não precisasse ser mandado, justamente porque a indústria de animes não se importa muito com quem está fazendo, desde que se faça.

O grupo de pessoas que ele adquiriu para trabalhar consigo é constituído por pessoas muito próximas a ele, ou que acabaram se aproximando do seu jeito de fazer animação. Isto foi depois de fazer Hoshi no Koe, claro, mas ainda concede a Makoto Shinkai a flexibilidade para colocar em prática toda sua honestidade, que é induvidável.

As participações do diretor em suas obras não se limitam em nenhum aspecto. Makoto faz questão até de dublar alguns personagens. Em Kanojo to Kanojo no Neko (She and Her Cat), temos algumas imagens ao seu estilo mais primitivo com uma narração feita por sua própria voz.

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A voz, agora metaforicamente falando, de Makoto Shinkai está presa em Hoshi no Koe. O filme de vinte e poucos minutos, apesar de não trazer a grandiosidade que ainda viria a alcançar, mostra a distância como ponto culminante. E essa mesma distância seria o que ele viria a trabalhar em todas as suas obras, seja fisicamente, sentimentalmente, socialmente, enfim, sempre colocando barreiras entre seus personagens para representar o conflito. Isso é produzido de um jeito muito bonito, trazendo uma execução quase inimaginável: dois adolescentes separados pelo tempo e pelo espaço, fazendo transações metafísicas sobre objetos humanos, como um celular. A demora de oito anos para uma mensagem chegar a alguém poderia fazer com que um sentimento mude até alcançar a pessoa desejada. Sim, Makoto quis mostrar a força das emoções humanas colocando os personagens, mesmo depois de alguns dez anos, ainda sentindo afeição pelos outros. E isso é muito interessante em relação à sociedade japonesa: na maioria das vezes, quando um jovem japonês se apaixona, pode demorar até cinco, dez, quinze anos para se confessar à outra pessoa. O espiritual que ainda se acredita “existir” naquela cultura ganha alguma força, mesmo que indiretamente, para a progressão romantizada das pessoas. A persistência japonesa sempre jazeu aí.

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Agora, temos outra peça importantíssima. Kumo no Muko (The Place Promised in Our Early Days) é mais ou menos um cenário pós-apocalíptico, o que acaba lembrando um pouco Hoshi no Koe. Guerras circundam aquele mundo. No entanto, há uma pertinência em relação aos personagens. Por ser um filme mais ambicioso – além de ter uma hora e meia –, acaba perdendo alguns clímaxes e não tendo a mesma ponta de atenção que, por exemplo, seu antecessor obteve. Shinkai também se propôs a produzir tudo no anime, só que aqui ele contava com uma boa equipe para ajudá-la em tudo, inclusive dubladores de ponta, como Nanri Yuuka, Inoue Kauhiko (que depois também viria a participar de Hoshi o Ou Kodomo), Mizuno Risa (que faria uma breve participação em 5cms), Takemoto Eiji e Ishizuka Unshou.

O ponto ápice do uso da música por Makoto Shinkai eu destacaria por Kumo no Muko. O cenário do filme é completamente anti-juvenil, o menos esperançoso, eu diria. Seria comum o uso de armas para sobreviver, aliás, o Japão que ali é representado foi dividido e dominado pelos Estados Unidos e pela suposta União Soviética. E o pôster do anime é muito simples: dois adolescentes segurando violinos para combater essa revolta militar. O mais intrigante é que você precisa olhar algumas vezes para se dar conta de que são violinos, pois parecem armas de verdade, uma coisa que ficaria até radical para um filme dessa dimensão de Shinkai. E, de certa forma, os violinos seriam como as armas deles, funcionando como uma ofensiva tentação para os três personagens principais poderem se reencontrar. Apesar de não ser o que mais traz esse feeling, seria o filme com a história mais dramática de Makoto, o que, considerando sua temática visual, coube muito bem para sua carreira.

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Byousoku Go Senchimetoru

Ontem, eu tive um sonho…“… Um sonho sobre o passado.” ”Nesse sonho, nós ainda tínhamos treze anos de idade…” “… E nós estamos em um vasto, nevado, vazio campo.” ”As luzes que surgem da casa parecem muito esmaecidas e tão longe.” ”Apenas nossas pegadas estão na estrada que passa por nós.” “Com este cenário…“… Algum dia nós iremos ver as flores de cerejeira juntos.” ”Ele e eu, sem uma sombra de dúvidas…“… sentimos-nos assim.”

Aqui é onde tudo “começa”, mas não é bem “o começo”. Não foi o baque inicial para Makoto Shinkai ficar famoso no seu meio industrial, e sim onde sua staff reuniu-se em um trabalho parecido com Hoshi no Koe, mas com peculiaridades a mais que fizeram do anime algo muito maior talvez do que o esperado pelo próprio diretor. Pode-se dizer, é o início da definição, para o público, do que viria a ser Makoto Shinkai, por isso tão importante dividir sua carreira pela obra. No entanto, seus objetivos estavam traçados há mais tempo, desde suas tarefas de divulgação com Sher and Her Cat e outros curtas ou vídeos musicais de pouco mais de dois minutos. (Aliás, fez uma participação no Ani*Kuri15 com o curta de um minuto Neko no Shuukai [A Gathering of Cats], sendo, a meu ver, a melhor para essa série de experimentações da animação japonesa.)

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A diferença exata está no modo como 5cm/s é contado. Todos os filmes do Shinkai são únicos por serem dele, ou seja, sua cara fica estampada como uma representação de um gênero, o “gênero Shinkai”. Todavia, aqui temos um anime com tantas falas quanto a progressão divina das imagens podem transpor. Os diálogos são incríveis, mas também um pouco superficiais, servindo de pleno pano de fundo, ironicamente, para a animação conversar com o espectador, mesmo que não se perceba. O conceito, que é o mais importante, está puramente nas fotografias. Mesmo assim, o anime só funciona porque as vozes cintilantes e afáveis nos afetam, algo que certamente Makoto usou por uma fonte da literatura japonesa que tanto preza.

Byousoku Go Senchimetoru é a terceira obra que mais gosto de Shinkai, mas é a mais representativa de todo o seu trabalho. Pode-se ter uma definição de tudo o que ele produziu a partir dela. A noção de distância e aproximação entre os personagens, que sempre foi um dos, se não o essencial, foco dos animes. Nota-se que existe algo além do material, uma moral imposta pelo existencialismo muito bem centrado dos personagens. Suas metas são genuínas, e suas motivações estão na “platonização” – aliás, é bom citar como o estudo da filosofia grega foi introduzida fortemente no Japão ao decorrer do século XX, o que pode ter torando possível essa dimensão, mas, além disso, vamos discutir – entre os personagens por algum empecilho em suas vidas: a separação. O afastamento dos personagens se dá por algum motivo social ou consequente, como a idade, uma guerra inesperada, o simples destino rotineiro… Contudo, os protagonistas nunca deixam de estar conectados, geralmente por algum sentimento em comum, onde, quase em todas oportunidades, encontramos uma cena ou outra onde os “monólogos se encontram” e eles dissertam algumas frases simultaneamente.

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Sua animação, na maioria das vezes, consiste em fotografias de lugares já esbeltos. Semelhantemente, assim funcionou com 5cm/s, o que o fez receber algumas acusações. Certamente, a forma única como qualquer autor segue suas obras não pode ser inteiramente sua. Existe um estudo e uma tentativa de fazer aquilo que se admira, portanto, se fôssemos discutir propriedades, entraríamos para outros parâmetros de entendimento. O que importa é que Makoto Shinkai construiu sua própria originalidade. E a reflexão está exatamente em suas imagens conversativas.

Não há um devido uso de insights, mas sim de paisagens, closes aparentemente aleatórios. O que se sente com os personagens é algo compreensivo, justo e real. A fotografia ganha espaço acima da ação, ponto forte de Shinkai que fica realçado ao máximo aqui. E talvez seja por isso que eu prefira Hoshi no Koe, por ser mais transigente com aspectos narrativos. A direção em 5cm/s é feita com exatidão, inegável. As pétalas de cerejeira, tão clichês e funcionando como um arco de entendimento filosófico do filme – caindo no chão a 5 centímetros por segundo –, voam de um lado para o outro sem muita rapidez. O que são rápidas são as trocas de cena e imagem, já que estas tomam o anime com caráter. Com isso, nota-se a dificuldade e o tempo que Makoto Shinkai, com sua staff muito competente, usa para concluir uma obra-prima como Byousoku Go Senchimetoru. Ainda assim, vejo um potencial que está para abalá-lo.

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Hoshi o Ou Kodomo

Diferente do usual, devo admitir que admiro Hoshi o Ou Kodomo (ou Children). É um filme querido, com uma proposta substancialmente semelhante às demais obras do diretor. A diferença está unicamente na fórmula: uma garota perdida em um mundo mágico; um príncipe por quem ela se apaixona e vai ajudá-la em sua jornada; um personagem terceiro aleatório que a irá auxiliar e servir de figura superior, mesmo sendo mais fraco emocionalmente; bichinhos fofinhos, mas que podem assumir formas duvidosas; sangue esbarrando na tela; monstros além da imaginação; imagens paradisíacas… Enfim, se você ainda não pegou alguns filmes do Ghibli por estas descrições, é porque está precisando rever alguns clássicos. E, bem, o que tem a ver essa fórmula teoricamente boa com o relativo fracasso do filme? Shinkai usou os seus olhos para completar a obra, que são, como devem ter percebido, muito mais românticos que o potencial de Children. Existe uma distância considerável para que isso desse certo.

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De um jeito ou de outro, acredito que, além de apenas uma interessante experiência, Hoshi o Ou Kodomo foi uma sábia escolha de Shinkai. É óbvio que ele não esperava apenas que terminasse como um simples teste para seus caminhos, mas acabou ficando por isso. Todas as obras de Makoto até agora, incluindo a que vou comentar depois, se enquadram em um drama simples e com personagens igualmente singulares, sem a necessidade de aprofundamento, já que eles são engenhosamente subjetivos pela trama em si. Entretanto, em Children, temos Asuna, uma protagonista temerosa e um mundo lunático. Sua falta de admiração por aquele mundo nos dá uma sensação ruim, já que o anime em si tem a premissa de fantasia, algo em escassez na personagem. Da mesma forma, o outro protagonista, o professor Morisaki, é teimoso, equivalentemente egoísta e com motivações impróprias para um enredo de Shinkai. Logo, a falta de identificação, a direção incaracterística à sua propriedade e a falta de atenção em detalhes narrativos o fazem pecar no filme como um todo. Afinal, a proposta, os personagens, o estudo, tanto por parte da literatura japonesa quanto por parte dos filmes do estúdio Ghibli, estão ali. O que viria a ser essa fórmula é bem representado em Children, porém sem a magia autêntica nem do Miyazaki, nem do próprio Shinkai. A prova que temos aqui é que o esforço nem sempre iguala o talento. Algumas tentativas a mais e Shinkai pode conseguir, mas ainda será difícil trazer a mesma atmosfera que todos seus outros filmes possuem.

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Children foi o único filme, até então, do Shinkai e não ser premiado como seus outros. Não é uma verdadeira crítica, já que, de verdade, muitos analistas de animes consideram Hoshi o Ou Kodomo como uma masterpiece e a colocam como uma das maiores do século para representar a magia da animação japonesa. E não chega a ser puramente mentira, já que possui sua leva de intensidade emocional, apesar daquelas referências executadas sem sua particular forma.

De qualquer jeito, é muito justo que o diretor tenha testado um trabalho por sua admiração. Ele sempre comentou que seu filme de animação preferido é Laputa: Castle in the Sky, assim como adora seu respectivo diretor, Hayao Miyazaki. Sendo assim, não houve vergonha ou medo e apostou nessa fórmula do estúdio Ghibli, algo incontestavelmente visível em Children, mesmo que sem a mesma consistência. Isso acaba não provando muita coisa. Makoto não é pior diretor e nem sujou sua imagem por ter feito tal filme. Pelo menos não em minha concepção, e qualquer crítico inteligente, que saiba o mínimo da história do diretor para criticá-lo, consegue enxergar – apesar de ser válido negativizar tudo o que falei até agora. E agora vamos para o ponto final, o mais trabalhoso…

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Kotonoha no Niwa – A Reconstrução

Noites antes de dormir… Manhãs, no momento em que acordo… Eu percebi que estava rezando pela chuva.”

Depois de Children, vem o receio de todos: Makoto Shinkai planejava desde o começo seguir o caminho de Miyazaki? Será que ele continuará tentando? Sua ambição falará maior daqui em diante, ou freará, pensará racionalmente e reconsiderará voltar, nem que por cinco segundos, às suas temáticas anteriores? Temos a resposta, pelo menos por enquanto, em Kotonoha no Niwa (The Garden of Words).

The Garden of Words seria um novo horizonte para Shinkai. De volta ao seu estilo, com uma recepção semelhante – e eu diria, particularmente, superior – a 5cm/s, Shinkai rompe suas barreiras e monta um linha de condução maior do que tudo o que já experienciei com animes. Em quarenta minutos, a amena ambientação de Kotonoha no Niwa é relaxante e chorante.

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Em um breve resumo, O Jardim das Palavras conta a história de Takao, um menino que sonha em fazer sapatos. Ele trabalho em empregos de meio turno para conseguir dinheiro e completar seu sonho, já que sua família é um tantinho desestruturada. Takao adora a chuva, pois seu cheiro o faz pensar no céu, algo que admirava em sua infância. O estudante do ensino médio de quinze anos mata aulas em manhãs chuvosas, e em uma dessas manhãs acabou conhecendo Yukino, embora passe a maior parte do anime sem saber seu nome ou profissão – fatos que remetem a spoilers. Os dois se encontram várias vezes em ocasiões como esta e acabam se aproximando, com um único aparente problema: Yukino tem quase o dobro da idade de Takao.

Kotonoha no Niwa é diferente porque há conflitos maiores e brigas diretas. Bebeu um pouco da arte de Hoshi o Ou Kodomo, porém com a primazia das demais obras, fechando com o melhor filme do Shinkai, e um dos melhores animes da pequena década, do ano, talvez dos últimos tempos.

Makoto Shinkai ainda não havia mostrado tamanha naturalidade em sons e imagem quanto em Kotonoha no Niwa. O barulho da chuva, da cidade, do metrô, dos passos das pessoas… A troca de feeling, onde uma única música é feita exclusivamente para aquele determinado momento, a mudança da adoração para o dramático.

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Animar a chuva não é uma tarefa fácil. E quando o seu anime tem como foco principal essa bravura da natureza? Existe uma conexão entre as cenas e a chuva que não é apenas chamativa. Não é impressiva, como na maioria dos animes. A chuva toma uma imensidão fora das noções básicas de animação, onde, mesmo quando se pausa o filme, se sente naquele cenário molhado. Afinal, antes de tudo, as fotografias são a base para a condução de um ‘filme shinkaiano’. Mesmo assim, existe uma diferença entre esse filme para os demais, já que a movimentação é inevitável. Há um complemento diferente dos outros filmes, uma palpável aceitação de mudança.

A câmera é movimentada para se comunicar sempre. Os focos nos sapatos do menino dão a entender que aquilo é importante. E não é para menos, já que ele é um almejante a sapateiro. As partes deslumbrantes do filme se passam acinzentadas, o que é quase controverso para o padrão que Shinkai tinha até aqui. A direção é mais que exemplar, é o auge de o que Makoto poderia passar para seu espectador. Em um cenário muito arborizado, já que Takao e Yukino sempre se encontram em um parque – em um parque baseado diretamente no Parque Nacional de Shijuku Gyoen, na verdade –, mas também muito urbanizado pela mudança de planos de Takao. A finalização é o uso, até com muita ajuda de técnicas em terceira dimensão, desses monumentos e objetos grandes para passagens de cena, onde a tela, de um rio cintilante, pode, no outro segundo, esbarrar nas pernas de Yukino apenas para fazer sua apresentação ao filme.

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Em manhãs ensolaradas, eu pego o metrô e sigo para cá [a escola], como eu deveria fazer. Mas eu penso comigo mesmo: ‘Isto não é o que eu deveria estar fazendo agora. ’”.

A emoção em si é ainda mais relevante. O desenvolvimento de Yukino é impactante, tanto por ela ser uma mulher bem mais velha que o protagonista, fato incomum nos dramas de Shinkai; mas também porque tem uma consistência muito profunda e intensa na forma como a personagem muda completamente sua visão de mundo por causa do garoto. Sua vida muda, sua juventude e sua grandeza de pensamentos, que já tinha pensado estar estagnada desde sua adolescência, são retomadas pela identificação com Takao.

A proximidade que os dois possuem [SPOILERS], o fato de Yukino ser professora no mesmo colégio que Takao é evidenciado sempre. Ela cria uma adoração progressiva em relação ao estudante – que, na verdade, não é seu aluno, e ele ser tão desligado, viver em seu próprio mundo é a única coisa que o faz não perceber que ela é uma professora. Mesmo assim, Takao se questiona e até pergunta a ela uma vez se já não se conheciam, mas a autenticidade da condução do enredo nos faz esquecer o detalhe tão importante e inteligente. Acima disso, há toda a função de desencorajamento a seus sonhos suposta por parte da professora, que é uma mentira, mas o motivo pelo qual Takao sempre achou que ela estivesse se escondendo, o fazendo de bobo. [FIM DE SPOILERS] E não é um motivo ingênuo, já que os professores japoneses têm esse costume de ser rígidos e fazer os alunos “se colocarem em seus lugares”, limitando a função de desenvolvimento das pessoas. Junto disto, a academia e rigidez não são espaço para a paixão do personagem, um assunto que Makoto Shinkai nunca deixará de colocar de modo implícito ou explícito em suas obras.

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As personalidades dos personagens tomam uma imensidão humanamente espetacular. Yukino é um pouco fria, já que se deixou levar por essa história mesmo mentindo para si mesma e para o novo melhor amigo. Só que ela tem intenções tão boas, seus pensamentos circundam tão bem com pequenos monólogos que tudo soa natural. Ela se torna uma personagem tanto realista quanto fantasiosa, fechando a máxima da idealização de Shinkai – e com uma interpretação visual e dublagem ótimas. Seu pequeno romance que forma com Takao é subjetivo. Os closes na roupa do menino, e logo mostrando um sorriso de compreensão no rosto da professora, mostram o interesse que ela fez em cima dele, o interesse que se formou.

A forma ousada de transformação de Kotonoha no Niwa para as outras obras é partir das palavras. E talvez seja mera coincidência, mas essa essência está lá no título do filme. A literatura e as conversas, o espanto dos personagens, ou melhor, a felicidade ao perceber que está chovendo… Ao mesmo tempo que a direção é sublime e entrelaçada, os diálogos e pensamentos dos personagens são objetivos. Claro, são bonitos, mas não tão levados para o lado poético, lado muito confortável de Shinkai. É um descobrimento alucinante da sociedade juvenil japonesa. As ações tomam mais importância, como fazer uma comida, caminhar pelo parque ou brigar com alguém, e não apenas aquele mundo intangível.

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A parte de direção que ficou frágil em Children veio com integridade em Kotoniwa. Sem contar que o uso da família se fez presente, a participação dos irmãos e amigos foi de maior valor, sem ficar superficial. As aparições momentaneamente sem precisão de Yukino, mas que, no fundo, servem para representar o medo dela de continuar, já que ela tinha receio de encontrar com Takao e ele acabar descobrindo sua profissão. A câmera geralmente mostra um ambiente inteiro para poder trazer a personalidade do personagem, sua rotina para quem vê. O quarto de Yukino, por exemplo, recebe atenção completa, além dos detalhes, a bagunça e a desorganização. Existe uma ênfase concreta para os acontecimentos.

Nem mesmo a vontade de Takao em fazer sapatos é insensata. E Shinkai pôde trazer à tona sua representação desse lado do querido personagem de um jeito diferente, mais uma inovação para seu “auto-gênero”. Um flashback com muita “cara de flashback”, sabe? Um recurso que ainda não tínhamos tido o prazer de apreciar pelo diretor. Este, com outros elementos que trouxe nesse filme, surgiram, digamos assim, da ideia de mudar seus parâmetro com Hoshi o Ou Kodomo, por isso considero a obra muito importante para ele. A cena é simples: Takao se lembra de um sapato muito bonito que dera para sua mãe, pessoa que já não convive mais com ele como um dia fizera. Suas intenções são singelas e próprias.

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A narrativa consegue ser intrínseca por si só, mas também pela relação entre os personagens. Yukino, na primeira vez em que os dois se encontram, recita uma parte de uma tanka – tipo de poesia japonesa – para o menino. E isso remete tanto à profissão dela quanto à mensagem em si que ela quer passar para Takao. O perfeccionismo está onde? Está no fato de o garoto não apenas recitar, posteriormente, o resto da poesia para ela, mas usá-la como uma declaração de amor. E isso fica claro porque ele cita e ainda faz um complemento por si mesmo, mas Yukino, de tão encantada com o momento, não percebe. Posteriormente, juntando peças, ela descobre que ele gostava dela desde o começo.

As trovoadas são agressivas e rigorosas, porém não conseguem deixar de ser bonitas.

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Como elemento complementar, devemos indispensavelmente considerar a musicalidade de Makoto Shinkai. Mais uma vez, é algo complexo de se analisar. Não há uma linearidade musical ou trilhas sonoras intensas, que tocam incessavelmente. Podemos tomar como exemplo Hoshi no Koe, feito sem todos os recursos e tempo, já que Makoto decidiu fazer tudo por si mesmo, o que interferiu, obviamente, no desenvolvimento do trabalho. E não é algo negativo, já que as últimas obras dele ficaram com músicas não apenas lindas e agradáveis, mas que são feitas especialmente para a trama. Não há outra razão daquela música que não fazer parte, por exemplo, de um segmento da história onde um personagem está se decepcionando com alguém. E esse exemplo é o que ocorre nas cenas finais de The Garden of Words, quando [SPOILERS] Takao fica triste com Yukino por não aceitá-lo pela diferença de idade. [FIM DE SPOILERS]

Claro, as trilhas sonoras dos últimos filmes de Shinkai não são exclusivamente mérito dele, mas as decisões são, como dito, mais que meras escolhas. A genialidade do uso das músicas nas obras de Makoto Shinkai está em um detalhe: elas não são constantes nos filmes. Não mesmo. A maior parte das cenas é constituída pelo silêncio aprazível. A forma como isso influi em Kotonoha no Niwa é notável, já que o anime serve como um diálogo pela chuva e pelas palavras, por muitas vezes vazias, da esperança e da tentativa de se aproximar dos dois personagens principais.

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Você fala comigo tão gentilmente, como se você estivesse tocando em algo frágil. Mas, naquela época, quando eu achava difícil até de respirar, você apenas escutou as vozes ao seu redor. Você não acreditou em mim.”

Kotonoha no Niwa, assim como a maioria dos filmes de Shinkai, fica mais da metade do tempo sem músicas, apenas com sons ‘naturais’. Mas aqui existe uma particularidade: tem mais tempo sem trilha sonora, porém, quando elas fazem presença, tudo fica mais intenso. Há uma leva de velocidade na trama a ser prensada quando o piano toma conta.

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Seria ótimo ver Makoto Shinkai saindo de sua zona de conforto. Mas não necessariamente no sentido Children da coisa, e sim no sentido de alguns pequenos detalhes. Usar pessoas idosas para representar sua criança interior; usar relações homossexuais ou mais excêntricas que o até agora testado; usar seus mesmos adolescentes, porém por um lado mais literalmente pobre e mais conceitualmente rico. Sua percepção da sociedade japonesa e a representação para o potencial desta é incrível. Seria o ponto principal para seus personagens tão jovens e lutando por um raio de luz, mas Makoto pode mudar ainda mais seus modos de contar histórias sem ser extravagante – no mau sentido – como foi em Children. The Garden of Words já avançou um grande passo para tudo isso.

A conclusão do filme é bem simples. Não poderia haver muita coisa a mais, sendo um final bem shinkaiano. Algumas palavras proferidas pela boca de Takao são notoriamente de desgosto pelo calor do momento, erradas, e isso é incrivelmente humano. Já Yukino é infantil, de certa forma, mas se mostra madura naqueles últimos momentos, tendo aprendido o que precisava com Takao para poder seguir em frente. Ao mesmo tempo, o filme é realista e não faz com que o protagonista se perca em seus sonhos. Ele sabe que ainda não pode andar sozinho, mas vai fazer de tudo para poder encontrá-la um dia por seu próprio esforço.

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Como puderam perceber, é difícil trabalhar Shinkai sem extremos. A polaridade, positiva quando não julgada a partir de Children, monta uma beleza excepcionalmente Shinkaina. Kotonoha no Niwa é toda a essência de Makoto Shinkai e mais um pouco. É um passo gigantesco para seu caminho como o grande diretor que ainda está para ser. Deixando de lado o fato de ele ser “o novo Miyazaki”, quero ver o dia em que ainda aparecerá “o novo Shinkai.”

Honestamente, há duas coisas que eu sei com certeza. Um: ela deve pensar que um garoto de quinze anos como eu é só uma criança. E dois: fazer sapatos é a única coisa que pode me guiar para longe daqui.”

Eu não sei nada sobre ela. Seu trabalho, sua idade… Que preocupações ela carrega… Nem ao menos seu nome. Ainda assim, não consigo evitar ficar encantando por ela.”

Eu acho que este pode ser… o momento mais feliz da minha vida.”

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