Filme: A Viagem de Chihiro

Ganhador de vários prêmios, “A Viagem de Chihiro”, assim como “Tonari no Totoro” e muitos outros, é um clássico do saudoso Estúdio Ghibli, dirigido por ninguém menos que Hayao Miyazaki. Portanto, é uma das obras que não podem faltar no repertório de um otaku ou de um amante de boas animações.

No meu caso, até chego a me emocionar quando começo a ver uma dessas obras, pois é tanta riqueza de detalhes e tantas sutilezas, que não aguento. Quando vemos uma dessas animações, não conseguimos enxergar quantas pessoas tornaram isso possível, pois são inúmeras. E saber que tantas emoções e formas de ver a vida estão ali, na tela, é uma experiência incrível.

Chihiro é uma garota normal que está se mudando com seus pais. No meio do caminho, eles se deparam com um túnel. Os pais de Chihiro decidem entrar nesse túnel, e acabam chegando a um parque temático abandonado (construções por volta dos anos 90, que faliram devido à crise), onde há vários restaurantes, mas nenhuma viv’alma. Os pais da garota encontram um desses restaurantes cheio de comida fumegante, e começam a comer descontroladamente. Eles até chegam a chamar a filha, mas como ela recusa, rapidamente a ignoram.

E Chihiro foi ignorada pelos seus pais mais uma vez.

Começa a anoitecer, e Chihiro dá de cara com um garoto chamado Haku, que a alerta de que não pode ficar ali. Indo de encontro aos pais, a garota percebe que seus pais viraram porcos. Isso me remeteu ao genial livro “A Revolução dos Bichos”, de George O’brien em que “Se tornara impossível distinguir quem era homem, quem era porco”, ou seja, os adultos movidos pela ganância e orgulho se tornam totalmente irracionais. A única pessoa que não havia concordado em estar ali, Chihiro, se vê então presa em um mundo completamente desconhecido, habitado por vários tipos de espíritos.

Confesso que essa cena me chocou um pouco u.u

Encontrando com Haku novamente, ele lhe diz que a única forma de salvar seus pais é sobrevivendo nesse mundo “à la Wonderland”, e que precisa arranjar um emprego ou senão a transformarão em um animal.

Quando Chihiro precisa descer as escadas na beira de um precipício também podemos ver a forma em que devemos enfrentar nossos medos. Não devagar e com receio, como a garota começa fazendo a princípio, mas com determinação (como ela é obrigada a fazer depois kkk). Ela precisará dessa coragem para enfrentar tudo o que está por vir.

Uma de muitas cenas hilárias ^^

A cena das fornalhas também é uma anedota explícita sobre o capitalismo e a forma como os trabalhadores (representados por pequenos bichinhos pretos e iguais) são tratados. Esses bichinhos são encarregados de aquecer as fornalhas para aquecer o banho de quem “está por cima”. Em troca eles ganham um pequeno agrado, em forma de alguns confeitos coloridos, já que é praticamente isso o dinheiro, certo? Para quem sofre com a desigualdade, é apenas uma alegria momentânea que se desfaz como açúcar.

Que felicidade…

Mas Kamaji, responsável pelas fornalhas, diz que Chihiro não pode trabalhar ali, mas que pode recomendá-la a bruxa Yubaba, dona da casa de banhos, para que esta a arranje um emprego.

A bruxa Yubaba é uma mãe super-protetora, e seu filho é literalmente uma bebê-grande. Ela o priva de sair do quarto, dizendo que os germes lá fora podem matá-lo (conhecem o filme americano “Jimmy Bolha”? É bem por aí). Depois que Zeniba, irmã gêmea de Yubaba, o transforma em um ratinho, ele tem a chance de conhecer o mundo e de amadurecer.

Chihiro, Yubaba e seu “filhinho”

Na casa de banhos para espíritos acontecem muitas outras referências ao mundo em que vivemos. A cena em que Chihiro precisa ajudar a lavar um suposto “espírito do mau-cheiro”, que na verdade não é nada menos de que um espírito do rio, que fora poluído pelos humanos.

A cobiça e ganância também tomam conta do lugar, principalmente depois da chegada do “Sem-face”. Na verdade, o Sem-face não é um espírito ruim, mas é suscetível ao lugar em que se encontra. Percebendo que os empregados da casa de banhos fariam tudo pela riqueza, ele transforma lama em pepitas de ouro, e assim ganha atenção de todos, isso porque se sente muito sozinho. Se não fosse por Chihiro, a única que não se deixou levar pelo brilho do ouro, ele teria engolido todas as pessoas do lugar.

“O que eu preciso, você não pode me dar”

E o fim realmente me emocionou. Foi tocante sem precisar ser dramático, e deixando um gostinho de “quero mais”. Os personagens também passam longe de serem clichês, carregando cada um inúmeras metáforas e anedotas. Chihiro aparenta ser mimada no começo, mas percebemos que isso é só um reflexo da sua relação com os pais, pois ela aprende a sobreviver nesse mundo cruel, e acaba cedendo e se sacrificando pelos outros. Haku não é um mocinho perfeito, assim como Yubaba não chega a ser uma vilã como suspeitamos a princípio, já o misterioso Sem-face foi meu personagem preferido hehe.

Sem-face aprendendo tricô com Zeniba hihi (reparem na habilidade do ratinho ao lado kkk)

Poderia continuar citando inúmeros detalhes da obra, e provavelmente há muitos outros que ainda não percebi, mas uma coisa é certa: ver “A Viagem de Chihiro” é uma experiência incrível e recompensadora.

ja nee 😀

Kitsune

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